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QUADRO DA VIDA ESPÍRITA REVISTA ESPÍRITA 1859


Quadro da vida Espírita – Revista Espírita, abril  1859

EDICEL- SP (1964)

Traduzida rigorosamente conforme o original por: JULIO DE ABREU FILHO

Todos nós, sem exceção, atingimos, mais cedo ou mais tarde, o têrmo fatal da vida; o que é certo é que nenhum poder subtrair-nos-ia a essa necessidade. Muitas vezes as preocupações do mundo nos desviam do pensamento daquilo que se passa além-túmulo; mas, ao chegar o momento supremo, não são poucos os que perguntam em que se vão transformar, de vez que a ideia de deixar a existência sem uma possibilidade de retorno tem algo de pungente.

Com efeito, quem poderia encarar com indiferença a ideia de uma separação absoluta e eterna de tudo quanto foi amado? Quem poderia ver sem assombro abrir-se à sua frente o imenso abismo do nada, onde viriam desaparecer para sempre todas as nossas faculdades e todas as nossas esperanças? “Oh! depois de mim, o nada; nada mais que o vazio; tudo acabado irremediavelmente; mais alguns dias e a minha lembrança apagar-se-á na memória dos que me sobreviverem; em breve não restará nenhum traço de minha passagem pela terra; o próprio bem que eu tiver feito será esquecido pelos ingratos a quem tiver beneficiado; e nada compensará tudo isto: nenhuma outra perspectiva além de meu corpo a ser roído pelos vermes!”

Este quadro do fim de um materialista, traçado por um Espírito que tinha vivido esses pensamentos, não tem algo de horrível e de glacial? Ensina-nos a religião que não pode ser assim, e a razão o confirma. Mas esta existência futura, vaga e indefinida, nada tem que satisfaça o nosso amor ao que é positivo. É isto que gera a dúvida em muitos. Vá lá que tenhamos uma alma. Mas o que é a nossa alma? Ela tem forma e aparência? É um ser limitado ou indefinido? Dizem uns que é um sopro de Deus; outros, que uma centelha; outros, uma parte do grande todo, o princípio da vida e da inteligência. Mas que é o que tiramos de tudo isto?

Diz-se, ainda, seremos felizes ou infelizes, conforme o bem ou o mal que houvermos feito. Mas qual é essa felicidade que nos espera no seio de Deus? As chamas do inferno são uma realidade ou uma ficção? A própria Igreja o entende nesta última acepção; mas quais são os sofrimentos? onde o lugar do suplício? Numa palavra, que é o que se faz ou se vê nesse mundo que nos espera a todos?

Costuma dizer-se que ninguém voltou para nos dar informações. É um erro e a missão do Espiritismo é precisamente esclarecer-nos sobre esse futuro, fazendo-nos, por assim dizer, tocá-lo e vê-lo, não pelo raciocínio, mas pelos fatos.

Graças às comunicações espiritas, ela já não é uma presunção ou uma probabilidade, sobre a qual cada um borda à vontade e que os poetas embelezam com as suas ficções ou semeiam de imagens alegóricas, que nos enganam: é a própria realidade que nos aparece, pois são os próprios seres de além-túmulo que nos vêm descrever a sua situação, dizer-nos o que fazem, permitindo-nos, por assim dizer, assistir a todas as peripécias de sua vida nova e, por tal meio, nos mostram a sorte inevitável que nos aguarda, conforme os nossos méritos e os nossos desméritos.

Que haverá nisso de anti-religioso? Muito ao contrário, pois os incrédulos ai encontram a fé e os mornos uma renovação do fervor e da confiança. É pois, o Espiritismo o mais poderoso auxiliar da religião. Por isso que assim é, Deus o permite, para reanimar nossas esperanças vacilantes e nos reconduzir ao caminho do bem, pela perspectiva do futuro que nos aguarda. As palestras familiares de além-túmulo, que publicamos, a descrição que elas encerram da situação dos Espíritos que nos falam, iniciam-nos às suas penas, às suas alegrias, às suas ocupações. São um quadro animado da vida espirita e, na mesma variedade dos assuntos, podemos encontrar as analogias que nos tocam.

Vamos tentar resumir o seu conjunto. Inicialmente consideremos a alma à saída deste mundo e vejamos o que se passa nessa transmigração. Extinguindo-se as forças vitais, o Espírito se desprende do corpo no momento em que cessa a vida orgânica. Mas a separação não é brusca ou instantânea. Por vezes começa antes da cessação completa da vida; nem sempre é completa no instante da morte. Sabemos que entre o Espírito e o corpo existe um laço semi-material, que constitui o primeiro envoltório. Este laço não se quebra subitamente; e, enquanto subsiste, fica o Espírito num estado de perturbação comparável ao que acompanha o despertar.

Muitas vezes duvida de sua morte; sente que existe, vê-se e não compreende possa viver sem seu corpo, do qual se sente separado; os laços que ainda o prendem à matéria o tornam acessível a certas sensações, que toma como sensações físicas. O Espirito só se reconhece quando completamente livre. Até então não se dá conta de sua situação. A duração desse estado de perturbação, como já o dissemos em outras ocasiões, é muito variável: pode ser de algumas horas, como de vários meses. Mas é raro que ao cabo de alguns dias o Espirito não se reconheça mais ou menos bem.

Entretanto, como tudo lhe é estranho e desconhecido, é-lhe necessário um certo tempo para familiarizar-se com a sua nova maneira de perceber as coisas. Solene é o instante em que um deles ve cessar a sua escravização, pela rutura dos laços que o prendem ao corpo. Ao entrar no mundo dos Espíritos, é acolhido pelos amigos que o vêm receber, como se voltasse de penosa viagens. Se a travessia foi feliz, isto é, se o tempo de exílio foi empregado de maneira proveitosa para si e o elevou na hierarquia do mundo dos Espíritos, eles o felicitam.

Ai encontra os conhecidos, mistura-se aos que o amam e com ele simpatizam e, então, para ele começa verdadeiramente sua nova existência.

O envoltório semi-material do Espírito constitui uma espécie de corpo de uma forma definida, limitada e análoga à nossa. Mas esse corpo não tem os nossos órgãos e não pode sentir todas as nossas impressões. Entretanto percebe tudo quanto percebemos: a luz, os sons, os odores, etc.

E estas sensações não são menos reais, posto nada tenham de material; têm, até, algo de mais claro, de mais preciso, de mais sutil, porque lhe chegam sem intermediário, sem passar pela fieira dos Órgãos que as embotam.

A faculdade de perceber é inerente ao Espírito; é um atributo de todo o seu ser; as sensações lhe chegam por toda a parte e não por canais circunscritos. Falando da visão, dizia-nos um Espírito: “É uma faculdade do Espírito e não do corpo; vedes pelos olhos, mas não é o olho que vê: é o Espírito.”
Pela conformação de nossos órgãos necessitamos de certos veículos para as nossas sensações. É assim que nos é preciso a luz, a fim de refletir os objetos, o ar para nos transmitir os sons. Tais veículos tornam-se inúteis, desde que não tenhamos mais os intermediários que os tornam necessários. Assim, pois, o Espírito vê sem auxilio de nossa luz, ouve sem necessidade das vibrações do ar. Eis por que para ele não há obscuridade.

Mas as sensações permanentes e indefinidas, por mais agradáveis que sejam, com o tempo tornarse-iam fatigantes, se não fosse possível a elas subtrair-se. Por isso tem o Espírito a faculd ade de as suspender: à vontade ele pode deixar de ver, de ouvir, de sentir tais ou quais coisas e, consequentemente, não ver, não ouvir, não sentir senão aquilo que queira.

Tal faculdade está na razão de sua superioridade: porque coisas há que os Espíritos inferiores não podem evitar, pelo que sua situação se torna penosa. A princípio o Espírito não compreende essa nova maneira de sentir, da qual só aos poucos se dá conta. Aqueles cuja inteligência é ainda muito atrasada não o compreendem absolutamente e sentiriam muita dificuldade em exprimi-lo: exatamente como entre nós os ignorantes veem e se movem, sem saber como nem porquê.

Esta possibilidade de compreender o que se acha acima de seu alcance, aliada à fanfarronada, de ordinário acompanha a ignorância e é a fonte de teorias absurdas, dadas por certos Espíritos, os quais induzir-nos-iam em erro, se as aceitássemos sem controle e se, pelos meios fornecidos pela experiência e pelo hábito de com eles conversar, não nos tivéssemos assegurado do grau de confiança que eles merecem.

Sensações há cuja fonte se acha no próprio estado dos órgãos. Ora, as necessidades inerentes ao nosso corpo não se podem verificar desde que não exista mais corpo. Assim, pois, o Espirito não experimenta nenhuma fadiga, como nenhuma necessidade de repouso ou de alimentos, desde que não tem que reparar nenhum desperdício. Não é afligido por nenhuma das nossas enfermidades. As necessidades do corpo determinam necessidades sociais, que para eles não mais existem. Assim, para ele não mais existem as preocupações dos negócios, as discórdias, as mil e umas tribulações do mundo e os tormentos que nos causamos para nos proporcionarmos as necessidades ou as superfluidades da vida.

Eles têm pena do esforço que fazemos por causa de futilidades. Entretanto, quanto mais felizes são os Espíritos elevados, tanto mais sofrem os inferiores. Mas esses sofrimentos são angústias; e, posto nada tenham de físico, nem por isso são menos pungentes: eles têm todas as paixões e todos os desejos que tinham em vida (referimo-nos aos Espíritos inferiores) e seu castigo é o de não poder satisfazê-los. Isto lhes é uma tortura, que julgam eterna, por isso que sua mesma inferioridade não permite que lhes vejam o término, o que lhes vem a ser um castigo.

A palavra articulada é uma necessidade de nossa organização. Como os Espíritos não necessitam de sons vibrados para lhes ferir o ouvido, compreendem-se pela simples transmissão do pensamento, assim como por vezes acontece que nos entendamos por um simples olhar. Entretanto os Espíritos fazem barulho. Sabemos que podem agir sobre a matéria e esta transmite-nos o sons. É assim que se dão a entender, quer por meio dos golpes vibrados, quer por meio de gritos no vago. Mas então fazem-no por nós e não por si. Voltaremos ao assunto em artigo especial, no qual trataremos da faculdade dos médiuns auditivos.

Enquanto arrastamos penosamente pela terra o nosso corpo pesado e material, como o calceta as suas correntes, o dos Espíritos, vaporoso e etéreo, transporta-se sem fadiga de um lugar para outro, rasga o espaço com a velocidade do pensamento e tudo penetra, sem encontrar qualquer obstáculo na matéria. O Espírito vê tudo aquilo que vemos, e mais claramente do que nós. Além disso vê aquilo que não nos permitem os nossos sentidos limitados; chega a penetrar na matéria e ver aquilo que ela oculta aos nossos olhos.

Não são, pois, os Espíritos seres vagos e indefinidos, conforme as abstratas definições da alma, a que nos referimos pouco antes; são seres reais, determinados, circunscritos, que gozam de todas as nossas faculdades e de outras que nos são desconhecidas por isto que são inerentes à sua natureza: eles têm as qualidades da matéria que lhes é peculiar e constituem o mundo invisível que povoa o espaço, envolvendo-nos e se acotovelando incessantemente conosco. Suponhamos por um instante desfeito o véu material, que os oculta aos nossos olhos: ver-nos-íamos envolvidos por uma multidão de seres que vão e vêm, agitando-se em torno de nós e nos observando, do mesmo modo que faríamos se nos encontrássemos em uma assembleia de cegos. Para os Espíritos nós somos os cegos e eles são os videntes.

Dissemos que ao entrar em sua nova vida, o Espírito requer algum tempo para se reconhecer; que tudo lhe é estranho e desconhecido. Perguntarão como pode ser assim se já teve outras existências corpóreas; essas existências foram separadas por intervalos, durante os quais ele habitou o mundo dos Espíritos. Então esse mundo não lhe deve ser desconhecido, desde que não o vê pela primeira vez.

Várias causas contribuem para que essas percepções, posto já experimentadas, lhe pareçam novas. Como dissemos, a morte é sempre seguida por um instante de perturbação, o qual pode ser de curta duração. Nesse estado suas ideias são sempre vagas e confusas; a vida corpórea confunde-se, até certo ponto, com a vida espirita e ele ainda não as pode separar em seu pensamento. Dissipada a primeira impressão, as ideias pouco a pouco se aclaram, com o que volta, mas gradativamente, a lembrança do passado; esta, entretanto, nunca irrompe bruscamente. Somente quando ele se encontra inteiramente desmaterializado é que o passado se desdobra à sua frente como uma perspectiva, ao sair de um nevoeiro. Só então ele se recorda de todos as atos de sua última existência, depois das existências anteriores e de suas várias passagens pelo mundo dos Espíritos. Compreende, assim, que, durante um certo tempo, este mundo lhe pareça novo, até que ele ai se reconheça completamente e até que tenha recuperado de maneira precisa a lembrança das sensações aqui experimentadas.

A esta causa, entretanto, deve juntar-se outra, não menos preponderante. O estado do Espírito, como Espírito, varia extraordináriamente, na razão de sua elevação e de seu grau de pureza.  A medida que se eleva e se depura, suas percepções e suas sensações menos grosseiras se tornam; adquirem mais acuidade, mais sutileza, mais delicadeza; vê, sente e compreende coisas que não poderia ver, sentir ou compreender numa condição inferior. Ora, sendo-lhe cada existência corpórea uma oportunidade de progresso, lança-o a um novo meio, pois que, caso tenha progredido, encontra-se entre Espíritos de outra ordem, cujos pensamentos e hábitos são completamente diferentes. Acrescente-se que tal depuração lhe permite, sempre como Es-pírito, penetrar nesses mundos inacessíveis aos Espíritos inferiores, do mesmo modo que nos salões da alta sociedade não têm acesso as pessoas deseducadas. Quanto menos esclarecido, tanto mais limitado lhe é o horizonte; à medida que se eleva e se depura, esse horizonte se amplia e, com este, o circulo de suas ideias e percepções.

A comparação, que se segue permite compreendê-lo. Suponhamos um camponês bruto ignorante, vindo a Paris pela primeira vez. Poderá conhecer e compreender a Paris dos meios sábios e elegantes? Não; porque frequentará apenas as pessoas de sua classe e os bairros por estas habitados. Mas se, no intervalo de uma segunda viagem, esse camponês se desenvolveu e adquiriu instrução e boas maneiras, outros serão os seus hábitos e as suas relações. Então verá um mundo novo, em nada semelhante à Paris de outrora.

Dá-se o mesmo com os Espíritos. Mas nem todos experimentam o mesmo grau de incerteza. A medida que progridem desenvolvem-se-lhes as ideias e a memória é mais pronta; familiarizaram-se previamente com a sua nova situação; seu regresso entre os Espíritos já nada possui que lhes cause admiração; encontram-se em seu meio normal e, passado o primeiro momento de perturbação, se reconhecem quase que imediata-mente.

Tal é a situação geral dos Espíritos, naquele estado chamado de erraticidade. Mas, que é o que fazem neste estado? Como passam o tempo? São perguntas de interesse capital. São eles mesmos que no-lo respondem, como foram os próprios a dar as explicações que acabamos de transmitir, de vez que nada disto é fruto de nossa imaginação; não se trata de um sistema saído de nosso cérebro: julgamos pelo que vemos e ouvimos. Posta de lado qualquer opinião relativamente ao Espiritismo, hão de convir que esta teoria da vida de além-túmulo nada contém de irracional; ela apresenta uma senciência e um encadeamento perfeitamente lógicos e que fariam honra a qualquer filósofo.

Seria erro pensar que a vida espírita seja uma vida ociosa. Ao contrário, ela é essencialmente ativa e todos nos falam de suas ocupações. Tais ocupações necessariamente diferem, conforme seja o Espírito errante ou encarnado. No estado de encarnados, são elas relativas à natureza dos mundos que habitam, às necessidades que dependem do estado físico e moral desses mundos, bem como da organização dos seres vivos. E não é de tal coisa que devemos aqui tratar. Falaremos apenas dos Espíritos errantes.

Entre os que já atingiram certo grau de desenvolvimento, uns velam pela realização dos desígnios de Deus nos grandes destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos e concorrem ao progresso de cada mundo. Outros tomam os indivíduos sob sua proteção, constituindo-se seus gênios tutelares e anjos de guarda e os acompanhando desde o nascimento até à morte, buscando encaminhá-los pela via do bem. E sentem-se felizes quando seus esforços são coroados pelo sucesso. Alguns encarnam-se em mundos inferiores, para neles realizarem missões de progresso; pelo trabalho, pelo exemplo, pelos conselhos e pelos ensinamentos procuram fazer que uns progridam nas ciências e nas artes, outros na moral. Então se submetem voluntariamente às vicissitudes de uma vida corpórea por vezes penosa, com o objetivo de fazer o bem; e o bem que fazem lhes é contado. Muitos, enfim, não têm qualquer atribuição especial: vão a todo lugar onde sua presença é útil, dar conrelhos, inspirar boas ideias, animar os desanimados, fortificar os fracos e castigar os presunçosos. Se se considerar o número infinito de mundos que povoam o universo e o número incalculável de seres que os habitam, compreender-se-á que os Espíritos têm muito com que se ocupar. Tais ocupações, entretanto, nada lhes têm de penosas: exercem-nas com alegria, voluntariamente, sem constrangimento, e sua felicidade é triunfar naquilo que empreendem; ninguém pensa numa ociosidade eterna, que seria um verdadeiro suplício. Quando as circunstâncias o exigem, reúnem-se em conselho, deliberam sobre a marcha a seguir, conforme os acontecimentos, dão ordens aos Espíritos que lhes são subordinados e, a seguir, vão para onde lhes chama o dever.

Estas assembleias são mais gerais ou mais particulares, conforme a importância do assunto; nenhum lugar especial ou circunscrito é afetado por tais reunidos. O espaço é o domínio dos Espíritos. Contudo êles ficam de preferência nos mundos onde estão os seus objetivos. Os Espíritos encarnados, que aí estão em missão, delas participam, conforme a sua elevação: enquanto o corpo repousa, vão eles beber conselhos entre os outros Espíritos e, por vezes, receber ordens relacionadas com a conduta que devem ter, como homens. É verdade que ao despertar não guardam lembrança muito nítida daquilo que se passou, mas têm intuição, que os leva a um procedimento como que espontâneo.

Descendo na hierarquia, encontramos Espíritos menos elevados, menos depurados e, conseguintemente, menos esclarecidos; nem por isso são menos bons e, numa esfera de atividade mais restrita, desempenham funções análogas. Em vez de estender-se a diferentes mundos, sua ação é antes exercitada num mundo especial e relacionado com o seu grau de desenvolvimento; sua influência é mais individual e tem como objetivo coisas de menor importância. Vem a seguir a multidão de Espíritos vulgares, mais ou menos bons, mais ou menos maus, que pululam em torno de nós. Estes se elevam pouco a pouco acima da humanidade, cujas nuanças representam, e como que refletem, pois que têm todos os vícios e virtudes dessa humanidade.

Em muitos deles encontramos os gostos, ideias e inclinações que possuíam em vida; suas faculdades são limitadas, seu julgamento falível, como o dos homens e, por vezes, mesmo, erróneo e imbuído de preconceitos. Noutros é mais desenvolvido o senso moral: mesmo sem grande superioridade nem grande profundidade, julgam com mais critério, por vezes, mesmo, condenando aquilo que fizeram, disseram ou pensaram em vida. Aliás há uma coisa notável: é que, mesmo entre os Espíritos mais comuns, de um modo geral, os sentimentos são mais puros como Espíritos do que como homens. A vida espirita os esclarece quanto aos seus defeitos e, salvo muito poucas exceções, arrependem-se amargamente e lamentam o mal que fizeram, pois lhe sofrem mais ou menos cruelmente as consequências.

Vimos alguns destes que eram melhores do que tinham sido em vida; nunca, porém, os vimos piores. O endurecimento absoluto é muito raro e apenas temporário: mais cedo ou mais tarde acabam lamentando a sua posição. Pode, pois, dizer-se que todos aspiram o aperfeiçoamento, porque todos compreedem que é este o único meio de sair da inferioridade. Instruir-se, esclarecer-se — eis a sua grande preocupação e eles se sentem felizes quando podem a isto acrescentar pequenas missões de confiança, que os elevam aos seus próprios olhos.

Também eles têm as suas assembleias, de maior ou menor importância, conforme a natureza de seus pensamentos. Falam-nos, veem e observam aquilo que se passa; participam de nossas reuniões, de nossos jogos, de nossas festas e de nossos espetáculos, assim como de nossas ocupações sérias; escutam as nossas conversas — os mais levianos, como divertimento ou para rirem-se à nossa custa, ou ainda para nos pregarem uma peça, desde que o possam; os outros, a fim de instruir-se. Observam os homens, analisam o seu caráter e fazem aquilo que se costuma chamar estudo de costumes, com o fito de escolherem a sua existência fatura.

Vimos o Espírito no momento em que, deixando o corpo, entra em sua vida nova. Analisamos as suas sensações e seguimos-lhe o desenvolvimento das ideias. Os primeiros momentos são empregados em reconhecer-se e dar-se conta do que se passa em si. Numa palavra, ele, por assim dizer, experimenta as próprias faculdades, como a criança que, pouco a pouco, vê crescerem-lhe as forças e os pensamentos. Falamos dos Espíritos vulgares, pois os outros, como já dissemos, estão de certo modo, e previamente, identificados com o estado espírita, que nenhuma surpresa lhe causa, senão a alegria de se encontrarem livres dos entraves e dos sofrimentos físicos.

Entre os Espíritos inferiores muitos sentem saudades da vida terrena, porque sua situação como Espirito é cem vezes pior. Eis por que buscam distrair-se com a visão daquilo com que outrora se deliciavam; mas essa mesma visão lhes é um suplício, porque sentem desejos, mas não os podem satisfazer. Entre os Espíritos é geral a necessidade de progresso. E isto os excita ao trabalho por seu melhoramento, de vez que compreendem que é este o preço de sua felicidade. Mas nem todos sentem essa necessidade no memo grau, principalmente no início; alguns, mesmo, chegam a comprazer-se numa espécie de vagabundagem, aliás de pouca duração; logo a atividade se lhes torna uma necessidade imperiosa, à qual, aliás, são arrastados por outros Espíritos, que lhes instilam os sentimentos do bem.

Vem a seguir a escória do mundo espírita, constituída de todos os Espíritos impuros, cuja preocupação única é o mal. Sofrem e desejariam que todos sofressem como eles. A inveja lhes torna odiosa toda superioridade; o ódio é a sua essência. Não podendo influir sobre os Espíritos, investem contra os homens, atacando aos que lhes parecem mais fracos. Excitar as paixões ruins, insuflar a discórdia, separar os amigos, provocar rixas, pavonear o orgulho dos ambiciosos, a fim de dar-se ao prazer de os abater em seguida, espalhar o erro e a mentira, numa palavra, desviar do bem, tais são os seus pensamentos dominantes.

Mas por que permite Deus que assim seja? Deus não tem que nos prestar contas. Dizem-nos os Espíritos superiores que os maus são provações para os bons e que não há virtude onde não há vitória a conquistar. Aliás, se esses Espíritos malfazejos se encontram em nossa terra, é que aqui encontram eco e simpatia. Console-nos o pensamento de que, acima deste fango (lodo) que nos cerca, existem seres puros e benevolentes, que nos amam, nos sustentam, nos encorajam e nos estendem os braços, atraindo-nos, a fim de nos conduzirem a mundos melhores, onde o mal não encontra acesso, desde que saibamos fazer aquilo que devemos para o merecer.






 

 

 

 



 

 
 

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